O ex-presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, afirma que o banco central dos EUA perderia a credibilidade necessária para estabilizar a economia se os dirigentes pudessem ser destituídos por divergências políticas. O alerta foi feito no momento em que a Suprema Corte analisa a tentativa do presidente Donald Trump de demitir a governadora Lisa Cook.
Powell alerta que o Federal Reserve não sobreviverá se um presidente puder demitir funcionários por causa de decisões políticas

Pontos principais
Uma defesa direta da independência do Banco Central
Powell fez os comentários ao receber o prêmio John F. Kennedy Profile in Courage em Boston, em uma de suas defesas mais contundentes da instituição que liderou por quase oito anos. Ele argumentou que, se qualquer governo destituir autoridades do Federal Reserve por diferenças políticas, governos futuros provavelmente farão o mesmo, fazendo com que o público perca a fé de que o banco central age no interesse de todos os americanos. Privado dessa confiança, disse ele, o Fed perderia a credibilidade que sustenta uma economia forte e estável.
Os comentários chamaram a atenção por sua franqueza, já que os banqueiros centrais normalmente evitam se pronunciar sobre disputas políticas em andamento, mas Powell enquadrou a questão como existencial, e não partidária. O Federal Reserve, sugeriu ele, não sobreviverá como instituição independente se seus funcionários puderem ser demitidos simplesmente por terem opiniões impopulares sobre taxas de juros ou inflação.

O momento escolhido por Powell não foi por acaso, já que suas declarações coincidem com as deliberações da Suprema Corte sobre a tentativa de Trump de destituir a governadora Lisa Cook, que o presidente tem buscado demitir com base em alegações não comprovadas de fraude hipotecária. O caso é amplamente visto como o teste mais sério à independência do Fed
em décadas, pois uma decisão favorável à Casa Branca estabeleceria que um presidente em exercício pode destituir a liderança do banco central à vontade.Powell, que deixou o cargo de presidente no início de 2026, ainda ocupa uma cadeira no Conselho de Governadores e sinalizou que pretende permanecer até o fim de seu mandato como governador, em janeiro de 2028. Isso o mantém como uma figura de destaque mesmo depois de passar o bastão para Kevin Warsh, que prestou juramento como presidente do Fed com apoio unânime do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC).
Os legisladores ficaram fortemente divididos sobre a independência durante a confirmação de Warsh, uma divisão que o discurso de Powell reacendeu.
Por que os mercados de criptomoedas estão atentos
Para os investidores em ativos digitais, a disputa é mais do que uma curiosidade constitucional. O Federal Reserve define o preço do dinheiro, e sua independência percebida molda as expectativas em relação às taxas de juros, ao dólar e ao apetite por ativos de risco (sendo o bitcoin um deles). Um banco central visto como cedendo à pressão política poderia ser levado a adotar uma política mais flexível, um cenário que alguns traders associam a preços mais altos do bitcoin, mas também aos temores de desvalorização da moeda que há muito alimentam a narrativa de “moeda forte” do ativo.
Caso a Suprema Corte decida a favor de Trump, analistas alertam que a incerteza resultante sobre a política monetária poderia injetar nova volatilidade tanto no mercado de ações quanto no de criptomoedas. Powell também vinculou os riscos ao tecido institucional mais amplo, usando a plataforma da premiação para alertar contra a pressão política sobre os tribunais e as instituições de ensino, bem como sobre o banco central.
As próximas semanas serão cruciais
Uma decisão que confirme a autoridade presidencial para destituir governadores, segundo Powell, daria a todos os futuros governos a mesma alavanca e corroeria a barreira entre a política e a política monetária.
De qualquer forma, Powell deixou claro que pretende continuar se manifestando de seu cargo de governador, mesmo com Warsh conduzindo a política. Para os traders de criptomoedas que acompanham as condições de liquidez, a mensagem é que a credibilidade do Fed (e a trajetória das taxas que decorre dela) pode depender menos dos dados econômicos de curto prazo do que de um tribunal em Washington.

















