Oferecido por
Interview

O CEO da Stables afirma que os fluxos migratórios favorecem o USDT, impulsionando a demanda transfronteiriça pelo dólar em 60%

Bernardo Bilotta argumenta que os bancos evitam as stablecoins não por falta de conhecimento técnico, mas para proteger suas relações vitais com os bancos centrais e os bancos correspondentes ocidentais, que são notoriamente avessos ao risco.

ESCRITO POR
PARTILHAR
O CEO da Stables afirma que os fluxos migratórios favorecem o USDT, impulsionando a demanda transfronteiriça pelo dólar em 60%

Pontos principais:

  • Bernardo Bilotta observa que a Ásia lida com 50% dos fluxos globais de stablecoins, mas os bancos temem o risco regulatório.
  • A Tether e a eStable agora permitem a emissão de moedas locais para que as stablecoins possam superar o domínio de 99% do mercado do dólar americano.
  • Até 2026, as stablecoins locais provavelmente servirão como canais de liquidação de última milha para pagamentos regionais.

A dicotomia da corrida às stablecoins na Ásia

A Ásia supostamente impulsiona quase metade dos fluxos globais de stablecoins, alimentando o comércio transfronteiriço e a liquidez institucional. No entanto, nos principais bancos de Cingapura, Hong Kong e Jacarta, a recepção às stablecoins continua claramente fria.

Enquanto alguns observadores atribuem isso a uma “diferença geracional” ou à falta de compreensão técnica, Bernardo Bilotta, CEO e cofundador da Stables, argumenta que a realidade é muito mais calculada. Segundo Bilotta, a relutância dos bancos asiáticos em adotar stablecoins não é uma falta de imaginação, mas uma lição magistral de autopreservação institucional.

Para um banco comercial, o ativo mais crítico no balanço patrimonial não é o dinheiro ou os imóveis; é o relacionamento com o banco central. Em muitos mercados do Sudeste Asiático, o ambiente regulatório para ativos digitais continua sendo um alvo em movimento.

“Assumir exposição a stablecoins, mesmo que apenas para processamento, significa assumir risco de reputação perante o regulador antes que as regras estejam totalmente definidas”, disse Bilotta. Em um ambiente onde as diretrizes podem se tornar significativamente mais rígidas de um trimestre para o outro com pouco aviso prévio, o risco de uma reviravolta regulatória torna o investimento em infraestrutura de longo prazo uma aposta que a maioria dos bancos não está disposta a fazer.

A armadilha da correspondência bancária

Além dos reguladores locais, os bancos asiáticos devem responder a uma hierarquia global. Para facilitar o comércio internacional, essas instituições dependem de relações de correspondência bancária com parceiros em Nova York e Londres.

Bilotta aponta uma dura realidade da atual estrutura financeira global: as equipes de conformidade nos centros financeiros ocidentais são notoriamente avessas ao risco. Se um banco em Jacarta ou Bangcoc começar a se envolver com stablecoins, corre o risco de ser sinalizado por seus parceiros ocidentais. A ameaça de ter uma relação de correspondência encerrada — efetivamente isolando um banco dos mercados do dólar americano ou do euro — é uma lógica de sobrevivência que supera em muito os lucros potenciais da integração de stablecoins.

Mesmo para bancos dispostos a ignorar o risco, surgiu um novo obstáculo: a fragmentação regulatória. Por toda a Ásia, as jurisdições estão seguindo caminhos muito diferentes. Cingapura, por exemplo, incorporou regras sobre stablecoins à sua Lei de Serviços de Pagamento já existente, enquanto Hong Kong promulgou recentemente uma Portaria sobre Stablecoins independente.

Os críticos argumentam que esses silos prejudicam o crescimento, já que um token em conformidade em uma cidade pode enfrentar obstáculos a apenas uma hora de voo de distância. No entanto, Bilotta não vê isso como um obstáculo, mas como uma fase necessária de convergência.

“Enquadrar isso como um problema puro e simples ignora o que realmente está acontecendo”, disse Bilotta. “Cingapura e Hong Kong têm abordagens diferentes para o mesmo objetivo: tratar as stablecoins como instrumentos de pagamento regulamentados. Os princípios subjacentes — lastro em reservas, direitos de resgate e conformidade com a legislação contra lavagem de dinheiro — estão convergindo.”

O trono inabalável do dólar

Uma das críticas mais persistentes ao setor de ativos digitais é sua dependência excessiva do dólar americano. Atualmente, 99% do mercado de stablecoins está atrelado ao dólar, enquanto tokens em moeda local — como aqueles atrelados ao iene ou ao dólar de Cingapura — sofrem com baixa liquidez e altos custos de slippage.

Isso representa uma falha da tecnologia? Não segundo Bilotta. Ele argumenta que o domínio de stablecoins atreladas ao dólar, como o USDT, não é um acidente da história, mas um reflexo da demanda fundamental do mercado.

“Nos mercados emergentes da Ásia, as pessoas buscam ativamente exposição ao dólar”, disse Bilotta. “Um trabalhador migrante que envia dinheiro de Cingapura para as Filipinas quer a estabilidade do dólar, não um token em moeda local. Eles usam o USDT porque querem dólares, não porque lhes falte uma alternativa local.”

Embora Bilotta não preveja que as stablecoins em moeda local desafiem o domínio do dólar nos fluxos transfronteiriços tão cedo, ele vê um caminho claro para sua utilidade: a camada de liquidação de última milha.

Alinhando sua estratégia corporativa com essas percepções, a Stables anunciou recentemente uma parceria estratégica com a eStable para integrar infraestrutura bancária de nível institucional e recursos de emissão de stablecoins em moeda local. Essa integração expande a oferta principal da Stables para além dos corredores do USDT, adicionando liquidação institucional e emissão de stablecoins em moeda local lastreadas pelo USDT e pelo Hadron da Tether.

Enquanto isso, o movimento do Japão em direção a tokens regulamentados emitidos por bancos e a estrutura regulamentada pela Autoridade Monetária de Cingapura (MAS) estão abrindo caminho para que stablecoins em JPY e SGD atendam a casos de uso domésticos específicos. O verdadeiro avanço ocorre quando esses tokens locais atuam como ponte, convertendo fluxos globais de USDT em moeda local no momento exato do pagamento. Bilotta sugere que é aí que a liquidez finalmente se aprofundará e a utilidade real se concretizará.

O status quo na Ásia é atualmente um impasse tenso. De um lado está a gravidade inegável do volume de transações; do outro, os requisitos rígidos da conformidade com as normas legadas.

“Até que o custo da inação exceda o custo da ação, o status quo se mantém”, disse Bilotta. A postura cautelosa dos bancos asiáticos não é irracional — é uma posição defensiva. No entanto, à medida que a camada de infraestrutura se torna mais robusta e os tokens em moeda local começam a resolver o problema da “última milha”, a pressão sobre essas instituições só tende a aumentar. A questão para o setor bancário asiático não é mais se eles entendem a tecnologia, mas por quanto tempo ainda podem se dar ao luxo de priorizar a sobrevivência em detrimento da evolução.

Tags nesta história